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Dez
08

Memorias de Aquino de Bragança

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Quisera contigo viver uma vida,
sonhar sonhos de sempre existir,
imaginar em marchas cadenciadas
caminhadas de não mais terminar.

Em cada estrela vislumbrada
no espaço de céu azul,
ouvir teus sonhos projectados.

Lá longe na Lua liberta
ver o espelho de povos libertados,
cantando, tua firme voz me despertando
para um mundo de PAZ a construir!

Sílvia Bragança/ 1987
Poesia integrada no desenho da ilustração

Aquino de Bragança, goês, figura proeminente no cenário tri-continental, dedicou toda sua vida à libertação dos povos – primeiro indiano, e após a libertação desse, emprestou toda a sua capacidade para a libertação dos Povos Africanos, nomeadamente as Ex-colónias portuguesas: Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo-Verde, S. Tomé e Príncipe e Timor.
Participou na Luta contra o sistema colonial Português, mantendo-se ao lado dos Portugueses de Portugal, homens de boa-fé, alguns exilados na Argélia, que lutavam para se libertarem do fascismo que os subjugava ao longo de 40 anos.
Viajou mundo e acompanhou a mente das pessoas onde o seu barco o encaminhou.
Conheceu os homens através das suas próprias culturas e os respeitou, sabendo-se integrar nelas quando em vivências prolongadas. Viveu no exílio em Marrocos onde os seus dois filhos nasceram de 1958 a 1962 e de 1962 a 1974 na Argélia onde se empenhou nas lutas da Libertação e onde Marcelino dos Santos, ele, o Mário de Andrade e outras fundaram a CONCP.
Embora, sempre virado para a linha da esquerda, estudou e acompanhou a evolução dos dois blocos imperativos, sempre se confrontando nos momentos vitais do percurso da libertação dos Povos oprimidos do mundo.

Aquino de Bragança (6.04.1924 – 19.10.1986)
Curriculum vitae. Recolha feita por Sílvia Silveira, com o apoio de amigos do Aquino.

1924 Nasce em Badem, Goa.
1940 Termina o Curso Secundário no Liceu Nacional de Afonso de Albuquerque, em Panjim, Goa.
1945 Curso de Engenharia Química em Darwar, Índia
1947 Desloca-se a Moçambique, com a intenção de aí arranjar emprego. Abandona a ideia, desiludido com as atitudes racistas da governação fascista.

1948 Parte de Lourenço Marques para Portugal onde se encontra com Orlando da Costa (Escritor).
Em Lisboa conhece, também, o medico Arménio Ferreira, na casa dos Estudantes do Império.

1951 Fixa-se em Grenoble, onde faz estudos superiores. Convive com Roger Garaudy e outros intelectuais da esquerda. Inicia as suas actividades antifascistas, e começa a colaborar nos movimentos de libertação dos países colonizados, da Africa e da Ásia.

Em Grenoble. Encontra-se com Marcelino dos Santos (no dia 15 de Out). Faz amizade com Pierre Burg, Presidente da Associação de Estudantes de Grenoble, e através deste com Franz Fanon. Encontra-se pela primeira vez com Guy Penne, Presidente da Associação Nacional dos Estudantes de França, hoje senador vitalício.
Dinamiza as actividades de formação política dos estudantes das colónias.

1954 Fixa-se em Paris. Reside durante algum tempo na Casa do Marrocos, na Cidade Universitária. Conhece Mário de Andrade, e inicia-se uma amizade e uma colaboração mútua na luta dos movimentos nacionalistas africanos, que duraria até ao fim da sua vida. Conhece também o filho do Rei do Marrocos, Hassan, que era estudante em Paris nessa altura.
Tem um papel activo nas manifestações anticolonialistas dos estudantes das colónias, e na sua formação doutrinária e política.
Insere-se nos meios intelectuais, e relaciona-se com Nicolas Guilhaum (Historiador); Castro Soromenho (escritor e Professor de Sociologia Africana da Universidade de São Paulo); Pierre Jorge (Historiador de Ciências Políticas); Henri Lefebre (Historiador do Instituto de Ciência Políticas), Jean Paul-Sartre, e outros.
Conhece Ben Barka em Paris, e torna-se seu grande amigo. Conhece também Ben Bella (?).

1957 Fixa-se em Marrocos, com a permissão do Rei Mahomed V, e desempenha as funções de Secretário de Redacção do jornal sindicalista marroquino “ Al Istiklal”.

Exerce, também, as funções de secretário particular de Mhody Ben Barka (dirigente nacionalista marroquino, com quem fizera amizade em Paris).

1958 Casa-se com Mariana Bragança (em Marrocos ), de quem tem dois filhos: Radek e Maya.

1959 Nasce o primeiro filho Radek, em Setat, a 30 de Novembro.
Vive em Marrocos de 1957 a 1962. Nasce a sua filha Maya em Rabat a 1 de Março de 1962.

1961 Participa na fundação da CONCP, (Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas), de 18 a 20 de Abril, em Casablanca, como representante do partido do Povo de Goa juntamente com George Vaz. É eleito secretário da Organização; e Marcelino dos Santos, Secretário-Geral; Mário de Andrade, Presidente do Conselho Consultivo; João Cabral, Secretário Administrativo e Aristides Pereira, Secretário para a Tesouraria.
Acompanha Amilcar Cabral em várias missões delicadas. Participa no assim designado “contrabando de armas do PAIGC em Marrocos”.
Encontra-se com Nelson Mandela, em Marrocos, em1962 de quem se torna amigo e admirador.

1962 Fixa-se na Argélia, onde é co-fundador do semanário “ Revolution Africaine” e colabora no jornal diário “El-Moudjahid”. Vive na Argélia de 1962 a 1974.

É objecto de um mandato de captura emitido pela PIDE, com a data de 14 de Março de 1962. Toda a sua actividade passa a ser objecto de vigilância e relatórios periódicos, da PIDE.

1965 Participa na 2ª Conferência da CONCP, em Dar-es-Salaam, presidida por Agostinho Neto e secretariada por Mário de Andrade, Aquino Bragança e Amália de Fonseca. É autor, e co-autor com Pascoal Mocumbi e Edmundo Rocha, de alguns documentos presentes nessa Conferência ( ”A situação Política em Portugal; Luta da Libertação das Colónias Portuguesas”, etc)

1969 Torna-se comentador habitual do AFRICASIA, mais tarde Africa-Asie, dos assuntos das colónias Portuguesas, a convite de Simon Malley.
Escreve, com Immanuel Wallerstein, a obra “Quem é o inimigo?”.

De 1962 a 1974, na Argélia
Torna-se o porta-voz das lutas de libertação das colónias portuguesas, e teori-zador da emancipação das colónias da Africa. Toma iniciativas, e participa activamente em todas as actividades destinadas a colocar o problema das colónias, na ordem do dia dos temas internacionais.
Obtem apoios internacionais para essas lutas.
Desempenha um papel importante no apoio logístico aos movimentos de liber-tação.
Nesta actividade entra, obviamente, em contacto com os líderes dos movi-mentos, de quem se torna amigo, e muitas vezes conselheiro. Assim acontece com Amílcar Cabral, Mário de Andrade, Agostinho Neto, Eduardo Mondlane, Samora Machel, Ben Bella. Também conhece alguns anti-fascistas portugueses: Piteira Santos, Manuel Alegre, e outros.
É co-fundador da Escola de Jornalismo na Argélia, onde ensinava Sociologia do Jornalismo.

1974 Na sequência da Revolução de 25 de Abril, opta por colaborar na construção do país independente, Moçambique.
Em Maio (1974) é enviado a Lisboa, em missão especial, por Samora Machel, para identificar as individualidades com quem se devia negociar a Indepen-dência.
Contacta com o jornalista do Expresso, Augusto Carvalho, que o põe em contacto com Melo Antunes. (Cria laços de grande amizade com os dois). Através de Melo Antunes conhece os principais elementos do MFA, e estabelece contacto com outros políticos relevantes, entre os quais Mário Soares, com quem já havia estabelecido relações estreitas em Paris.

Ainda em Maio (1974) é recebido em audiência pelo Ministro da Comuni-cação Interterritorial, Dr. Almeida Santos. Foi o primeiro encontro de um membro do governo democrático português com um porta-voz dos movimentos de libertação.
Nesse mesmo ano, ele e Joaquim Chissano, começam a trabalhar activamente com Vítor Crespo, em Moçambique, na preparação do Governo de Transição.

Participa nos acordos de Lusaka, (Setembro de 1974), onde desempenha um papel preponderante na negociação com os políticos de Lisboa.
Com a intermediação de Augusto Carvalho, contribui para o desanuviamento das relações entre o presidente Samora Machel e o General Ramalho Eanes, o que facilitou as negociações.
Estabelece relações de amizade com o General António Ramalho Eanes durante o primeiro Governo, e participa nas negociações entre Portugal e Moçambique, fazendo várias deslocações a Lisboa para preparar a primeira visita do Presi-dente Ramalho Eanes a Moçambique e posteriormente do Presidente Samora Machel a Portugal em 1983.

Passa a ser Conselheiro de Samora Machel, na sequência da sua decisão de não ocupar qualquer pasta ministerial, no Governo de Moçambique

Relaciona-se com Dr. Sá Machado, então Ministro de Negócios Estrangeiros.

1975 Cria o Centro de Estudos Africanos em Moçambique onde desenvolve trabalho de pesquisa sobre a questão Rodesiana, e sobre o nacionalismo no Zimbabwe.
1976 É nomeado Director dos C.E.A.

1978 Participa na reunião de Bissau, em Junho, com Ramalho Eanes, Agostinho Neto e Luís Cabral.

1979 Morre a 23 de Maio a sua primeira esposa, Mariana.

1982 É gravemente ferido num atentado, por encomenda armadilhada, quando trabalhava no CEA, com a Dra Ruth First, que foi vítima mortal.

1983 Encontra-se com Silvia do Rosário da Silveira em Lisboa, a 8 de Outubro.

1984 Casam-se, pelo Registo Cívil, em 22 de Setembro de 1984. Em 23 de Dezembro desse mesmo ano, realiza-se o seu casamento religioso.

Morre em 19 de Outubro de 1986, no acidente de aviação, ocorrido em Mbuzini, Montes Libombos, na África do Sul., que vitimou quase toda a comitiva do Presidente Samora Machel, quando regressava de um encontro com o Presidente da Zâmbia.
Nessa altura Aquino preparava uma reunião com o Presidente da Africa do Sul, Peter Botha, para retomar as negociações da Paz entre Moçambique e África do Sul.

O ano 2006 foi o marco histórico dos 20 anos do desastre de Mbuzini onde perderam a vida o Presidente Samora Machel e mais 34 companheiros. Aquino encontrava-se nessa fatídica viagem. E, infelizmente nada se sabe de concreto como morreram essas 35 pessoas nesse fatal dia.

Está em elaboração um livro em sua memória onde constam testemunhos dos seus amigos e de todos os que o conheceram e que quiseram dar um contributo seu para o recordar o que irá também fornecer elementos para a reconstituição da história da libertação dos povos colonizados. O livro deverá ficar pronto em Janeiro de 2009.

No ano de 2009, a 6 de Abril, Aquino fará os seus 85 anos conforme consta da sua certidão de nascimento.
Pretendendo recordá-lo nessa data, solicitamos a todos os seus amigos ou leitores desta página que a corrijam, a critiquem ou a valorizem que poderá ajudar a clarificar muitas situações desconhecidas e assim se poderá acertar a sua biografia e alguns dados relevantes da História.
A sua intervenção, caro leitor, será sempre bem-vinda. Poderá enviá-la para o mail «silviabraganca@gmail.com»
Sílvia do Rosário da Silveira Bragança

P/opinião dos filhos
Consultar: – CEA para acrescentar algo de relevante de 1976 a 1986
– Belarmino Silveira (crítica)
-Tagore DinisTécnico da Página
-Jorge Ribeiro técnico

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1 Response to “Memorias de Aquino de Bragança”


  1. 1 emidio cavalcanti
    Abril 11, 2010 às 1:36 pm

    Prezada Sra.Silvia,
    sou estudioso de assuntos africanos.Estranho a ausencia de MIGUEL Arraes entre os amigos de Aquino Bragança.Estou a escrever um texto sobre os exilados de Argel-de todas as nacionalidades- e esta é uma informação preciosa.
    Muito grato
    Emidio.


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